Som
O silêncio se insinua sôfrego
desesperado
pungente
preciso gritar aos quatro cantos do mundo
que há vida, que há fundo
alguma voz há de calar em mim
sob o risco de eu calar a minha voz...
O silêncio se insinua sôfrego
desesperado
pungente
preciso gritar aos quatro cantos do mundo
que há vida, que há fundo
alguma voz há de calar em mim
sob o risco de eu calar a minha voz...
Meu rosto estampa a história do que fui
a estética estática das rugas
o estereótipo das brumas
a carcaça indelével dos dias
a mordaça arrogante das noites
sonhos, açoites
segredos anunciados nas dobras
prenúncios desavisados nas sobras
marcada a ferro e fogo
chamuscada
carimbada
ostento os sinais da comunhão de almas
transito pelo caos da calma
presença inconteste cravada em pedaços de mim
o que a ausência fez
foi somente perpetuar o fim...
A faca que corta a carne é a mesma faca que amansa a tarde......
A tarde que corrompe a noite é a mesma tarde que dominará o dia...
O dia que arruína as horas é o mesmo dia que constrói a aurora...
A aurora que vence a treva é a mesma aurora que o vento leva..
O vento que destrói mansardas é o mesmo vento que me acaricia a face...
A face que convulsiona a dor é a mesma face que sorri da vida
E a vida que atrapalha a arte nada mais faz que fazer sua parte
Sentir que estou sem ti
Saber que um dia estive
Entender que estará
Onde ninguém mais esteve
Estar aqui, querendo aí
E aí querer o aqui de volta
No clamor do estio
Sentir que estou sem ti
Saber que estás em mim
Sofrer com a falta das estrelas
Que não me dizem o lugar
Onde um dia também estarei
Porque nele você está.
Se por um lado o lado de lá se lhe apresenta
Por outro lado este mesmo lado se ausenta
Se fizer dos lados opostos os lados aliados
E fizer do lado de lá o lado que cá seria
Então lado a lado as almas conviveriam
No jogo de dados que eu ganharia.
Éramos nós como podíamos não ser....
Éramos sós, como sói acontecer
Eram os nós que atavam o viver
Eram os pós que voavam no amanhecer
Eram os cós das calças por cozer
Era o dia que a noite encobria
Era a válvula de escape da magia
Era a menina que fingia que sorria
Era a eterna semente que afligia
A dádiva que não sei se merecia.
Gárgulas decrépitos
Dráculas banguelas
Batmans diurnos
Miríades de sílfides
Duendes doentes
Corcundas retráteis
Gnomos gozados
Palhaços fardados
Na lírica poética
Do avesso da lógica.
Submarino amarelo
No fundo azul
Do Mar Vermelho
Encalha na praia dourada
De coqueiros verdes
E areias brancas
Mas nem isso consegue mudar o meu humor negro
Aquele vestido continua no canto
Lembrando um dia que esperei tanto
E sorri seu riso e chorei seu pranto
Aquele vestido estéril
Naquela praça ignóbil
Que o fez erétil
Por motivos óbvios
Aquele vestido amassado
No canto jogado
Por mim odiado
Por ser o vestido
Que vestiu a esperança
De você um dia
Não ser mais lembrança
Relíquia mórbida
Da tépida página
Recato público
Da folha cálida
Passagem bíblica
De peso híbrido
Libélulas másculas
Mágicos pernósticos
A lírica poética
Da minha verve trágica